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lá no alentejo, a meio da manhã fechavamos as portas, as janelas, corriamos as cortinas,
e ficávamos nas lajes do chão a ver um incêncio tentar entrar por debaixo da porta da rua.
almoçávamos cedo - e dormiamos a sesta.
nessa hora em que os mais velhos ressonavam, nós deitavamo-nos sobre uma pele de ovelha,
bem por debaixo do feixe de luz que vinha do cèu e entrava no quarto pela claraboia envidraçada do telhado.
a comida era sempre só coisas boas:
batatas fritas; não havia melhor - fritas em azeite e salgadinhas.
um prato de batatas fritas e duas fatias de pão - o mundo era perfeito.
tomatadas : quentes, frias, com ovos esclafados, a envolver o feijão verde, o feijão frade, a galinha desfiada.
ou simples numa tigela, esse creme ora amargo ora doce (tem a ver com o azeite que se põe),onde vamos molhando
o pão da manhã, debaixo da parreira.
sopas de tomate - com figos, com ameixas, com uvas, pimento verde, ovo esclafado, carnes fritas.
sopas de bedroegas com queijo velho raspado em cima;
gaspacho - tão fresquinho, com o que houver: umas lascas de presunto, umas rodelas de paio do lombo, com batats fritas, como fazem em Campo maior. com tortilha de ovo, também.
E claro, no verão, havia sempre as comidas das festas: cabidela de galo, ensopado de borrego, borrego assado no forno,
arroz corado no forno.
Do nosso quintal, da horta ou da courela vinham as ameixas rainhas claudias, os figos, os beijinhos, as melancias, os melões, as maçãs, as peras que já não existem.
Nos meses de verão era fácil ser feliz. o calor tudo igualava debaixo do seu poder branco.
o pão era bom, a água era fresca e as frutas davam a todas as casas um sensual perfume de vida, trabalho e esperança.
O alentejo que dantes era longe de tudo, agora também está longe destas histórias. longe de si mesmo.
No ALENTEJOS cultivamos, o que podemos, dessa memória. Bem-vindos.